Temporada de cruzeiros afogou o faturamento dos hotéis
Data de Publicação: 25 de março de 2008
REPORTUR
Cláudio Magnavita
A hotelaria brasileira está enfrentando um inimigo perigoso, que atua na alta estação, sangra as suas receitas e desequilibra o faturamento anual ao reduzir as taxas de ocupação em um período que serviria para recompor as suas operações na baixa temporada. Trata-se de uma situação cada vez mais grave, agravada na última temporada pelo grande número de transatlânticos que resolveu aportar no litoral brasileiro.
O Brasil é o único país do mundo a permitir a cabotagem doméstica, sem estabelecer regras compensatórias. Abre-se o litoral para que navios estrangeiros embarquem no mercado local - sem que haja a presença de estrangeiros como ocorre em outros países – e façam cruzeiros cobrando em dólares, com funcionamento de cassinos a bordo (o que é proibido na legislação do país), com mão-de-obra estrangeira e promovendo a evasão de divisas. Tudo na contramão de qualquer mandamento do investimento turístico.
O nosso setor tem como objetivo maior gerar empregos, promover o ingresso de divisas e fortalecer os empreendimentos nacionais. Os navios fazem tudo ao contrário. Promovem evasão de divisas, dão empregos a estrangeiros e ferem mortalmente as empresas nacionais que estão instaladas no Brasil.
Querer atribuir a derrota dos hotéis nesta competição aos altos preços dos empreendimentos turísticos ou ainda à falta de capacidade empresarial de se promover e concorrer é querer tapar o sol com a peneira. Existem até hoteleiros, ou melhor, filhos de hoteleiros que defendem esta tese da incompetência empresarial nacional.
A hotelaria brasileira é capaz de reagir se houver regras justas no jogo, principalmente no que se refere ao descontrole de estabelecer a concentração de oferta em períodos de pique, como ocorreu no Rio em pleno carnaval ou no réveillon. Eram oito navios fundeados. Os paulistas que faltavam nos hotéis (o Copacabana Palace foi um exemplo disso) estavam em alto-mar. Pagando menos e usufruindo de mordomias como oito refeições diárias. Tudo isso em navios que otimizam a sua baixa estação – período que não faturam no hemisfério norte – vindo para o litoral brasileiro tirar uma casquinha dos verde-amarelos reais. Para eles é um faturamento marginal sobre o faturamento nobre dos hotéis. Se por aqui, Rio de Janeiro, a situação foi grave, acendendo pela primeira vez as luzes vermelhas, nos locais que precisam de ligações aéreas a situação ficou mais grave.
Agora termina a temporada de cruzeiros. O litoral fica um deserto e os hoteleiros cambaleados são as únicas estruturas turísticas que permanecem no País. Baleados, feridos e sentindo falta da receita da alta estação que ficou à míngua.
A hotelaria deveria ter tido uma pró-ação maior na alta temporada. Se houvesse uma fiscalização eficaz do Ministério do Trabalho nos navios que estavam ancorados, haveria recordes de autuação, é o que deduz um conhecido líder hoteleiro, que faz a mea culpa neste caso: “Se a legislação em vigor fosse obedecida, os custos seriam maiores, mas é o que parece não ocorrer”, segundo ele.
Os navios estão indo embora e com eles o faturamento dos nossos hotéis. Eles reclamam agora é do colapso dos portos e do excesso de barcos além de terem uma temporada atribulada nos embarques e desembarques.
Os hoteleiros brasileiros precisam de ajuda. Os armadores e principalmente aqueles que atuam no litoral brasileiro sem correr riscos, como são os fretamentos, precisam ser submetidos a uma legislação que coíba os excessos. Tanto na questão trabalhista ou na obrigatoriedade de exigir que parte das cabinas destes navios, que não esteja sobre a responsabilidade de um fretador brasileiro – que assume todos os riscos da operação - seja reservada para venda no exterior. Por que não exigir esta contrapartida? Que as grandes companhias internacionais utilizem sua máquina de vendas no exterior para vender o Brasil. Trata-se de trazer um cliente novo, dinheiro novo e receita nova, equilibrando as contas e a concorrência. Disputar o mesmo mercado dos hotéis, burlando a legislação, abrindo os cassinos no momento que desatracam é injusto e imoral.
Nesta temporada, com os excessos que foram anunciados pelo próprio JT em 2007, a hotelaria brasileira sai ainda mais ferida. Enquanto a mídia especializada se dobra na defesa e na promoção insana dos cruzeiros marítimos como o turismo mais glamouroso do nosso litoral, seguiremos nesta nossa luta de defender os hoteleiros. São empresários que ficam aqui todos os meses do ano. Geram emprego. Abastecem seus estabelecimentos no mercado local e promovem o ingresso de divisas. Esta é uma bandeira que o Jornal de Turismo irá defender. Historicamente somos um veículo muito ligado a hotelaria e, nesta hora, temos a coragem de deixar até interesses comerciais de lado para defender esta causa que é justa, honesta e defende os interesses nacionais.
Os catálogos da temporada de cruzeiros 2009/2010 começam a ser preparados. O quadro anuncia um retrato pior do que o da temporada que agora se encerra. Será necessário um colapso na indústria hoteleira, com falências, quebradeiras e desempregos, para que alguem faça alguma coisa? A hotelaria brasileira pede socorro e o sinal de SOS já pode ser ouvido em bom som, principalmente por aqueles que não tapam ouvidos a serviço da farra marítima.
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