Trade turístico não pode ficar omisso ao cerco aos espanhóis na imigração
Por: Jornal de Turismo
Data de Publicação: 19 de março de 2008
REPORTUR
Cláudio Magnavita
No início do mês de fevereiro, o Brasil fez um milionário investimento de promoção na maior Feira de Turismo espanhola, a Fitur, em Madrid. Publicidade no metrô, um gigantesco estande e um trabalho de corpo a corpo com os principais operadores. A própria ministra do Turismo, Marta Suplicy, esteve presente e foi recebida pelo Rei da Espanha, Juan Carlos II. Tudo correto por ser o país ibérico um dos principais emissores de turistas para o mercado brasileiro. Pouco mais do que 30 dias depois começou um delírio nacionalista visando barrar e perseguir os turistas espanhóis que desembarcavam no Brasil, especialmente pela Air Europa e Iberia, empresas aéreas espanholas, com o objetivo de dar o troco pela deportação de brasileiros que tentavam entrar na Espanha. Tudo começou por conta de dois estudantes barrados quando tentavam participar de um congresso em Portugal.
Houve realmente excessos das autoridades de controle de fronteira da Espanha, mas estender isso ao território brasileiro, proibindo ou dificultando a entrada dos turistas espanhóis no Brasil é importar o non-sense como a solução mais imediata.
O pior de tudo é a passividade do trade turístico brasileiro, incapaz de se manifestar veementemente contra esta sandice. Calado estava, calado permaneceu, mesmo embasado num longo trabalho a respeito da reciprocidade, desenvolvido como argumento para justificar a aplicação do visto de fronteira para os norte-americanos.
Anos atrás, quando os Estados Unidos resolveram fotografar e colher as impressões digitais dos visitantes, tentamos, sob aplausos insanos, a mesma pirotecnia. Foi um vexame e um circo para a mídia. Houve até o caso célebre de um piloto da American Airlines que quase foi preso por ter respondido a humilhação com um gesto obsceno.
Agora, reeditamos em solo nacional o mesmo quadro, na sua versão ibérica. Estamos mais para Hugo Chavez do que para um país civilizado que tenta atrair visitantes de todo o mundo.
A hotelaria e os agentes de viagens, principalmente os que operam no receptivo, ficaram calados neste quadro. Não houve manifestações altivas, mesmo daqueles que estão legitimados com assento no Conselho Nacional de Turismo.
Estes excessos precisam ser combatidos. Para o nosso país os euros trazidos pelos turistas são fundamentais para o turismo. E os espanhóis são cobiçados pelos principais concorrentes do Brasil, é só analisar a presença caribenha na própria Fitur.
A tese de retaliação contra os espanhóis é de fácil clamor público. Ocorre o mesmo quando exigimos vistos para os americanos, porém a situação fica mais difícil quando não há um contraponto de bom senso, que quando realizado não pode ser tímido nem medroso.
É necessário mostrar que este tiro no pé dado pelas autoridades brasileiras fere mortalmente um trabalho de comercialização e construção de imagem realizada pelo próprio País nos mercados emissivos, neste caso a Espanha. O Brasil precisa das divisas geradas pelo turismo. Até Cuba utiliza todas as regras do marketing capitalista para seduzi-los.
A fragilidade da indústria turística, sujeita no Brasil aos mais diferentes rompantes, é fruto de uma falta de peso e organização política do setor. Nestas horas mais duras, na qual o posicionamento da iniciativa privada tem que falar mais alto do que o do setor público, falta quem fale grosso e defenda causas que aparentemente são “indefensáveis”. É só mostrar o quanto o Brasil pode perder no mercado espanhol para que haja um choque de realidade.
O pior, é que sem um contraponto a altura, já que os setores governamentais têm as suas limitações, a onda de non-sense se alastra. Já há casos de turistas espanhóis barrados no aeroporto de Salvador e de Fortaleza.
Os brasileiros barrados na Espanha merecem um contraponto e uma defesa veemente, mas é necessário separar o joio do trigo. Da mesma forma que nas prisões brasileiras, o maior número de estrangeiros é exatamente oriundo da Península Ibérica. Na Espanha, chega a ser endêmica a prostituição feminina e até a masculina realizada por brasileiros. As desigualdades sociais no nosso País são enormes e são os euros trazidos pelos turistas estrangeiros que irão contribuir para uma distribuição de renda mais justa.
As lideranças do turismo não podem ficar silenciosas neste momento e para se manifestar não é preciso coragem, só bom senso e vontade de colocar um ponto final nesta batalha quixotesca.
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